segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Memórias de Amor II


Vez ou outra estou aqui eu a implorar por tua atenção. Acompanho teus passos discretamente com a esperança de esbarramos na avenida principal. Mas, sempre chego atrasada. Nem acho que nossos relógios estão ajustados mais no mesmo horário. E até acho que quando você se foi, tratou de atrasar o horário dos meus para que eu ficasse perdida.

Eu sei que você quis ir, eu sei que não fiz nada para te impedir. Mas me dá o direito de pedir que você volte. Me dá o direito de mendigar por sua presença como uma putinha por dinheiro. Lambo-te os pés. Pode julgar porra! Eu não ligo, porque ela... Você não sabe quem é ela e se soubesse talvez fosse você quem tivesse de quatro a beijar-lhe os pés.

Ela é uma morena. Daquelas de pele macia e olhar profundo. Daquelas que mata qualquer assexuado de desejo. Porque ela é segura de si, fora da cama é como se fosse uma santa, com aquela cara de menina moça, mas na cama... Ah! É na cama que você a conhece de verdade, com aquela cara de puta, mordendo os lábios enquanto você a come, enquanto ela pede por mais.

Sim! Eu lambia teus pés com o mesmo desejo que chupei teus seios naquele dia 12. Naquele que a beijei com tanta vontade que esqueci até de respirar. Esquecemos até que é “errado” foder no primeiro encontro. Esquecemos qualquer lógica que existe. Troquei a despedida da noite por uma saída calorosa quando o dia amanheceu. Digo calorosa porque ainda sentíamos o prazer de nossas mãos deslizando pelo corpo uma da outra.

Mas deixa pra lá! Porque mesmo que eu te lamba o corpo todo ela já se foi. E hoje, é como se a sua existência se resumisse a um iceberg dentro de uma piscina de plástico. Tem algo muito frio dentro de um corpo muito pequeno. Não digo isso por desdém. Nem por ela ter me deixado. Muito menos porque ainda a amo, até mais do que no primeiro dia. Digo isso porque essa é a verdade dos fatos.

Pode até ser arrogante dizer isso, mas só eu derreteria todo aquele gelo. Sabe por quê? Ninguém conhece essa mulher como eu! Lhe conheço o corpo, cada ponto de fraqueza. Não só aqueles que lhe dão prazeres carnais, mas aqueles que te fazem sorrir. Sei o que ela gosta de tomar ao acordar. Sei também qual sua cor de esmalte preferida. Sei quais são seus medos, apesar de nem ela saber. Sei o que ela quer para o futuro e saiba que esse é o ponto principal. Porque eu sou tudo isso que ela quer, por esse motivo também sou o seu maior medo. Ela se foi por medo. E lá no fundo ela sabe disso. Toda essa frieza é como o escudo do guerreiro. E ela é sim uma guerreira, é mulher forte, mas não é imune a toda essa dor. Porque o amor é assim, não se sente satisfeito com a calmaria de um sentimento doce, ele causa dor, mesmo que ninguém seja o culpado do crime.

Então volta morena. Volta porque talvez eu mesma vire um iceberg aí será mais difícil. Porque teremos que esperar a correnteza nos fazer colidir... E o mar... Ah! O mar é imenso e salgado.

Nostalgia II


Estava prestes a completar mais um mês de existência quando rompi com ela. Disse-lhe adeus, assim como a pessoa mais decidida do mundo. Entreguei-lhe ao mundo com lágrimas nos olhos. Ela me olhou triste. Eu aos prantos. Fui covarde. Preferi não tentar. Fizemos planos para quando a faculdade passasse. Cinco anos. Em torno de 1825 dias. Eu não quis mais tentar. Eu desisti antes de dar errado. Na minha cabeça se desse errado agora ela podia até me enxergar como uma frouxa, mas talvez eu ainda pudesse conquista-la um dia. Então, desisti. De cabeça baixa mesmo. Apenas como uma promessa “Nos encontraremos daqui a cinco anos”.

Os dias me corroeram. Contei durante um ano cada dia que acabava. Abria a tua pasta que dizia “amor”. Tão clichê, como o nosso próprio sentimento. Revia todos os dias no início da madrugada as nossas fotos. Aquele teu cabelo ruivo. Dentes enormes, um pouco tortos, quase nada. Olhos furtivos e castanhos. Pele branca, de cor estridente. Ah... Como eu sorria ao ver aquelas fotos e como eu sempre terminava a derramar algumas gotas salgadas dos olhos. E eu sempre repetia “é ela”.

Sabe quando você é tão autodestrutivo que não se sente satisfeito em acabar com a sua vida apenas fumando um maço de cigarros por dia. Ou, bebendo todas em plena segunda-feira. Quem sabe, deixando de estudar para aquelas provas ridículas. Sabe quando você quer sentir tanta dor para que acabe com aquela maior que termina fazendo merda atrás de merda. Pois bem, essa sou eu. Porque não consigo me recuperar de uma pancada sem me jogar numa ladeira antes e me arrebentar toda. É como quando você tem um machucado no dedão do pé e em vez de fazer um curativo, você simplesmente chuta a parede. Essa sou eu.

Ela me deu abraços de mãe, amiga e amante. Beijos de criar borboletas no estômago, sim essa porra de clichê. Carinho dolorido. Marcou meu cérebro com o seu perfume. Arrancou-me a merda de alma que eu tinha e o trancou em um cativeiro cheio de ratazanas. Amordaçou meus sentimentos com as tuas palavras tão maduras. Tirou-me o prazer que eu pudesse ter com qualquer outra ao cravar teus seios em minha memória. Ela deu-me tudo enquanto nada pedia em troca. Às vezes até sinto raiva disso. Ela não poderia apenas ter me comido a virgindade e me partido o coração?

Depois de um ano, em que me aventurei com outras mulheres e me prendi a uma para acalentar essa dor, acabei que criei uma maior. Ela se mostrou indiferente inicialmente, entretanto nunca mais me deu notícia. Apresentei-lhe minha nova namorada, esfregando na sua cara do que eu era capaz e ela me disse “parabéns” com lágrimas nos olhos, fiquei com vergonha, mas senti prazer porque era como se eu devolvesse a dor que ela me causara, uma dor que ela nem ao menos intencionava. Estraguei. Chutei a parede com o pé machucado. Sangrei até foder com ele todo, até ficar aleijado. Essa sou eu.

Pouco tempo depois, já tentando me conformar, esbarrei com ela numa festa, eu que já estava bêbada lhe disse “parabéns” quando a vi de mãos dadas com outras e lhe perguntei ao ouvido “ainda lembra da nossa promessa?” ela olhou pra mim com pena, como se eu fosse um leproso, como se a minha existência fosse tão insignificante que ela só estava ali a me responder porque não havia mais nada de interessante, olhei fixamente em seus olhos procurando aquela garota que como uma desculpa para me beijar pela primeira vez entrou em um mar gelado em plena às 21hs e saiu toda molhada para me abraçar, me ergueu em seus braços como se fosse um filme, o nosso filme... E me beijou! Ficamos a nos olhar por no máximo uns 5 segundos eu acredito, mas me fez lembrar de tudo, eu ainda via amor ali naqueles seus olhos castanhos, então largou da mão da atual namorada e foi aproximando a sua boca do meu ouvido e sussurrou “você estragou qualquer chance, lhe entrego à vida, se cuida” e foi embora.

Hoje, ela é como AIDS pra mim, sem exagero da palavra, lembro-me todos os dias da sua existência porque dói e me acabo no cigarro e no álcool porque eu sei que um dia isso tudo vai simplesmente me matar.

Nostalgia I


Acordei mais um dia. São duas da tarde. Levanto-me meio que cambaleando. Procurando uma luz na escuridão do meu quarto. Abro de uma só vez as cortinas para que o sol da tarde acabe de me torturar. Respiro fundo ao sentir o vento bater no rosto, quase que se esquecendo do turbilhão de problemas que me apetecem. E dói. Não só os problemas mais a ressaca de remédios e cigarros da noite anterior. Naquele momento me fizeram tão bem e agora só se juntou ao meu estômago como uma comida estragada.

Olho para a cama e como se ela me chamasse eu desabo nas cobertas geladas, agarrando-a na esperança de que aquele nosso relacionamento eu não ia conseguir estragar nunca. Fecho os olhos antes que meus pensamentos retornassem. O telefone toca “hora do drama”, eu penso. A minha vontade é de jogá-lo na parede, mas aí eu só adiaria algo que no fim das contas ia acabar acontecendo. Pego um cigarro e atendo.

“Como você ‘ta’?”. Que se foda. Eu estou uma merda, é o que eu penso que queria dizer. Mas sou madura, afinal de contas só fumei uma carteira de cigarro na noite anterior quando eu queria devorar uma tabacaria inteira. “Eu estou bem”. Mas aí eu esqueço de devolver a pergunta e o drama começa. Depois da terceira frase eu já não estou escutando mais nada, só a minha cabeça latejando e pulsando como se fosse um coração doente. Ela fala o que quer e como criaram o “aham” eu o utilizei na ligação toda, a fez feliz – eu sei. Depois de um tempo crio uma desculpa boba e desligo o telefone. Acendo outro cigarro. Confiro o celular mais uma vez, nenhuma ligação, nenhuma mensagem, nenhum sinal de vida daquela ingrata. Que eu machuquei a dois anos atrás. Provavelmente que nunca voltará a essa minha vida, que se tornou tão imunda depois da sua partida.

Vou pro banho com o terceiro cigarro à mão. Ligo o chuveiro e sento no chão, do outro lado do vidro que me separa daquela água quente. E choro. Por ela que me amou tanto quando eu não merecia. Por ela que me entregou os pés, a alma, o corpo, pele e pelos. Por ela que me estragou para as outras quando me mimou tanto com os seus “eu te amo” bêbados. A chamo de vadia, puta e desgraçada enquanto olho para aquela parede sem vida e que se assemelha tanto aos meus dias. Chamo de puta a única mulher que amei e que resolveu sair dessa autodestruição que é a minha existência.

Tomo meu banho. Fumo outro maço de cigarros. Tomo café. Me entupo de remédios e durmo, amanhã é só mais um outro dia.

“De repente, estávamos louca, desajeitada, imprudente e angustiadamente apaixonados um pelo outro - e desesperadamente, deveria acrescentar, pois aquele frenesi de posse mútua só poderia ser apaziguado se, verdadeiramente, absorvêssemos e assimilássemos todas as partículas da carne e da alma um do outro”

Lolita, Vladimir Nabokov

Memórias de Amor I

É triste, mas às vezes te associo a um “caminho sem volta”. E pela primeira vez o fato de eu acreditar que estaremos sempre juntos não é mais romântico. Não que não exista amor. Entretanto, o se sentir presa a algo é um tanto deprimente, o medo de sair, de arriscar uma ficada qualquer, de estar apenas porque não quer estar sozinho consigo mesmo. Mas há amor, não aquele de anos atrás, aquele que o coração gelava e a perna estremecia só de cruzar com alguém com o mesmo perfume que o seu. Não existe mais isso, algumas vezes até abro a sua parte do armário pra ler qual perfume é o teu, e pego tuas roupas e esfrego no nariz, mas seu cheiro só permanece na memória por mais 2 minutos e já me pego fazendo outra coisa. Mas eu te amo, eu te amo como alguém que quero ao meu lado, pra cuidar da minha doença e tristeza. Amo pelo desejo de querer estar. Amo pelo simples fato de estar acomodada. Mas amo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Um Bêbado e Ninguém Mais II


Enquanto a Chico suavizava as suas músicas com aquela voz de veludo, eu estava com dor no corpo por uma mulher de coração absorvente, parecia que tinham empalado uma massa de solidão no meu peito. Me peguei pensando de forma distraída que amores são imperfeitos mesmo, não existe nada concreto nisso, quando encaramos estar verdadeiramente com alguém sabemos que o que está a nos esperar é um abismo e não um lago transparente.  Pode ser que passemos um dia, uma semana, um mês ou dez anos e, em seguida, pode simplesmente acabar. Mas é mulher, pelo jeito essa é a nossa vez.

Ela foi embora sem nem dar aviso prévio, só disse um “tchau” com as mãos postadas às suas malas, que levava até a porta, cabeça firme, olhando sempre pra frente. Abriu a porta e olhou-me pela última vez com aqueles olhos de pena, me fitando como se eu fosse um bicho leproso. A minha vontade era de esbofeteá-la naquele momento, mas eu não tinha forças nem para chorar.

Estava lá, já afogada na minha décima dose de dor. Culpando-me por deixa-la ir, culpando-me pelos erros que ela cometeu. Foi embora, talvez por cansada de tanto errar. Foi embora, eu nunca nem perguntei o porquê. Nem vou. Hoje só serei eu, a música, o cigarro e duas doses – uma de solidão, a outra de álcool.

Um Bêbado e Ninguém Mais


São 4 horas da madrugada. Mais uma noite sozinho, cigarro numa mão whisky noutra. Como sempre, pensando nela. De vez em quando vem uma lembrança dos nossos momentos. Agora pouco lembrei de uma tarde de sábado que eu estava a ler meus livros, sentado num banco vermelho que ficava em frente ao lago central, matutando porque diabos alguém pintaria um banco de um vermelho tão chamativo até que ela apareceu. Cruzei com ela algumas vezes, até pensei que era a vida aprontando uma comigo, porque a vejo tanto? Fiquei assustado, vai que ela pensa que eu estou perseguindo, essa deve ser a terceira vez que nos cruzamos, apesar de nunca termos nos falado. A verdade é que acho que ela nunca nem me notou.

Levantei um pouco o livro e fiquei olhando meio que de lado, encostei tanto no rosto que até notei o quão empoeirado estava meu Casmurro. Fiquei olhando seus movimentos com um olho só, cada passo eu acompanhava. Ela estava linda. Mas isso é até desnecessário falar. Ela sempre está linda.

Nunca conversamos, mas sei que sua voz é doce, uma vez escutei ela falando “moço? Quanto custa o picolé?”. Ah... Eu queria ter gravado! “moço” “moço” “moço”. Qualquer um teria se apaixonado nesse momento, aposto que o “moço” se apaixonou por ela como eu também me apaixonei. Nunca havia escutado uma voz tão doce na minha vida inteira, não pense que é exagero porque não é.

Agora, sempre antes de dormir eu repito “moço, moço, moço”. 
"Pega no meu queixo e diz que não sou só eu que sinto medo aqui. Faça alguma coisa ruim, qualquer coisa que me impeça imediatamente de sentir esse amor absurdo por você. Estou nas suas mãos e isso não é uma metáfora. Porque eu já não sei mais nada. Parece que sou mesmo seu foco de vida, mas também pode ser que você ande apenas distraído do resto do mundo. Ou, vai que você tá mesmo certo, as coisas são assim mesmo, o amor invade pela boca enquanto a gente se olha e fica rindo."

Gabito Nunes