Enquanto
a Chico suavizava as suas músicas com aquela voz de veludo, eu estava com dor
no corpo por uma mulher de coração absorvente, parecia que tinham empalado uma
massa de solidão no meu peito. Me peguei pensando de forma distraída que amores
são imperfeitos mesmo, não existe nada concreto nisso, quando encaramos estar
verdadeiramente com alguém sabemos que o que está a nos esperar é um abismo e
não um lago transparente. Pode ser que passemos um dia, uma semana, um mês ou
dez anos e, em seguida, pode simplesmente acabar. Mas é mulher, pelo jeito essa
é a nossa vez.
Ela
foi embora sem nem dar aviso prévio, só disse um “tchau” com as mãos postadas
às suas malas, que levava até a porta, cabeça firme, olhando sempre pra frente.
Abriu a porta e olhou-me pela última vez com aqueles olhos de pena, me fitando
como se eu fosse um bicho leproso. A minha vontade era de esbofeteá-la naquele
momento, mas eu não tinha forças nem para chorar.
Estava
lá, já afogada na minha décima dose de dor. Culpando-me por deixa-la ir,
culpando-me pelos erros que ela cometeu. Foi embora, talvez por cansada de
tanto errar. Foi embora, eu nunca nem perguntei o porquê. Nem vou. Hoje só
serei eu, a música, o cigarro e duas doses – uma de solidão, a outra de álcool.
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