Acordei mais um dia.
São duas da tarde. Levanto-me meio que cambaleando. Procurando uma luz na
escuridão do meu quarto. Abro de uma só vez as cortinas para que o sol da tarde
acabe de me torturar. Respiro fundo ao sentir o vento bater no rosto, quase que
se esquecendo do turbilhão de problemas que me apetecem. E dói. Não só os
problemas mais a ressaca de remédios e cigarros da noite anterior. Naquele
momento me fizeram tão bem e agora só se juntou ao meu estômago como uma comida
estragada.
Olho para a cama e
como se ela me chamasse eu desabo nas cobertas geladas, agarrando-a na
esperança de que aquele nosso relacionamento eu não ia conseguir estragar
nunca. Fecho os olhos antes que meus pensamentos retornassem. O telefone toca
“hora do drama”, eu penso. A minha vontade é de jogá-lo na parede, mas aí eu só
adiaria algo que no fim das contas ia acabar acontecendo. Pego um cigarro e
atendo.
“Como você ‘ta’?”.
Que se foda. Eu estou uma merda, é o que eu penso que queria dizer. Mas sou
madura, afinal de contas só fumei uma carteira de cigarro na noite anterior
quando eu queria devorar uma tabacaria inteira. “Eu estou bem”. Mas aí eu
esqueço de devolver a pergunta e o drama começa. Depois da terceira frase eu já
não estou escutando mais nada, só a minha cabeça latejando e pulsando como se
fosse um coração doente. Ela fala o que quer e como criaram o “aham” eu o
utilizei na ligação toda, a fez feliz – eu sei. Depois de um tempo crio uma
desculpa boba e desligo o telefone. Acendo outro cigarro. Confiro o celular mais
uma vez, nenhuma ligação, nenhuma mensagem, nenhum sinal de vida daquela
ingrata. Que eu machuquei a dois anos atrás. Provavelmente que nunca voltará a
essa minha vida, que se tornou tão imunda depois da sua partida.
Vou pro banho com o
terceiro cigarro à mão. Ligo o chuveiro e sento no chão, do outro lado do vidro
que me separa daquela água quente. E choro. Por ela que me amou tanto quando eu
não merecia. Por ela que me entregou os pés, a alma, o corpo, pele e pelos. Por
ela que me estragou para as outras quando me mimou tanto com os seus “eu te
amo” bêbados. A chamo de vadia, puta e desgraçada enquanto olho para aquela
parede sem vida e que se assemelha tanto aos meus dias. Chamo de puta a única
mulher que amei e que resolveu sair dessa autodestruição que é a minha
existência.
Tomo meu banho. Fumo
outro maço de cigarros. Tomo café. Me entupo de remédios e durmo, amanhã é só
mais um outro dia.
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